Que esporte e saúde são aliados, você sabe. Mas há casos em que a prática esportiva pode até ser fatal. Segundo Feres Chaddad Neto, neurocirurgião e professor de neurocirurgia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), não é incomum a ocorrência de AVCs, sigla para Acidente Vascular Cerebral, durante partidas e exercícios físicos. A boa notícia é que esse risco pode ser evitado.

Cerca de 5% da população têm aneurisma, ou seja, uma malformação nas artérias cerebrais. “A maioria das pessoas vai viver com ele sem nenhum problema, mas, caso ele se rompa, pode ser fatal ou deixar sequelas”, explica. Uma das causas do rompimento de aneurismas cerebrais é justamente a hipertensão arterial. “Durante a prática esportiva, há picos de pressão. Caso a pessoa tenha um aneurisma, correrá mais chances de que ele se rompa, gerando uma hemorragia cerebral, conhecida popularmente como derrame”, completa Chaddad Neto.

Foi esse o caso do lutador de MMA Leandro Caetano de Souza, o Leandro Feijão, que morreu vítima de um aneurisma aos 26 anos, em 2013, na véspera de entrar no ringue.

Segundo Chaddad Neto, há ainda os AVCs isquêmicos, que é a falta de sangue no cérebro, causados por um trombo (coagulação do sangue dentro de um vaso sanguíneo). Foi o que aconteceu com a jogadora da Seleção Brasileira de Handebol, Daniela Piedade, em 2012, durante o aquecimento para uma partida. Para o neurocirurgião, é realizar exames preventivos. “Da mesma maneira que se faz exames para ver a situação cardíaca antes de se praticar esporte, é importante também ver como está a saúde do cérebro”.

“Um dos exames indicados é a angiotomografia, que permite diagnosticar a existência de aneurisma antes do rompimento, que poderá ser corrigido via cirurgia”, reitera Feres. A recomendação é particularmente válida quando há casos de aneurisma na família, pois há mais risco de incidência.

/ Risco para os jovens

O risco de acidentes vasculares cerebrais em jovens é grande, pois, diferentemente de pessoas mais velhas, ainda não desenvolveram plenamente a circulação colateral. Um atleta tem um bom fluxo sanguíneo, uma circulação adequada, mas pode não ter uma circulação colateral desenvolvida, que são vias alternativas para a chegada do sangue ao cérebro. “Assim como um rio vai criando caminhos quando encontra barreiras, também no ser humano o sistema circulatório vai buscando canais opcionais de fluxo sanguíneo quando há obstrução por placas de gordura, por exemplo. Nas pessoas mais velhas, há a circulação colateral, que ainda não foi desenvolvida no jovem, mesmo que este pratique esportes”, diz o médico.

O neurocirurgião, contudo, destaca a importância da prática esportiva regular para uma saúde melhor, inclusive para se evitar AVCs. “A atividade física traz inúmeros benefícios: aumenta os níveis de HDL (lipoproteína de alta densidade, o “bom colesterol”); regula o açúcar no sangue, reduzindo o risco de diabetes; melhora a capacidade mental, como reflexos mais rápidos, maior nível de concentração e memória mais apurada; fortalece os músculos e a manutenção da massa óssea, fundamentais para retardar o envelhecimento; alivia o estresse e a ansiedade; melhora a qualidade do sono, além de ajudar na autoestima”, reforça Feres Chaddad Neto. “Portanto, para usufruir de todos esses benefícios sem riscos, antes de iniciar uma atividade desportiva, convém incluir o exame vascular do cérebro como quesito da avaliação física.”