Coringa é nada mais que um agente da sociedade pronto para soltar o que há de pior no ser humano, e assim, ter pra si aquilo que busca – glamour, graça.

Em Cavaleiro das Trevas, segundo filme da trilogia Nolan, existe um diálogo do mordomo Alfred que diz assim: “Alguns homens só querem ver o circo pegar fogo”. Aliado a isso, na HQ clássica de Alan Moore, a Piada Mortal, o próprio Coringa diz: “Basta apenas um dia ruim para reduzir o mais são dos homens em um lunático”. Essas duas falas escancaram o que é o Coringa de Joaquin Phoenix, filme de mesmo nome, dirigido por Toddy Phillips, que chegou ao cinema no dia 3 de Outubro. 

Gothan é retratada como a Nova York da metade dos anos 80, década na qual se passa o longa Coringa. Nela, vemos uma sociedade dividida por uma enorme desigualdade social, onde as pessoas mais prejudicadas são tratadas como palhaços, assim diria Thomas Wayne. Arthur Flack é um desses: sem graça, onde seu sonho é ser um comediante de sucesso e, por isso, busca no stand-up a forma para alcançar prestígio há tanto estimado. Porém, vimos que a vida dele não é uma comédia e sim uma tragédia. Além de todos fatores emocionais (Flake sobre de distúrbio da risada), o protagonista precisa cuidar da mãe e lidar com a depressão que é viver naquela Gothan oitentista.

/nasce o coringa

Por diversas vezes, vemos como Arthur é inconstante, como traços de ingenuidade e maldade de mãos dadas, tudo contornado por uma sensualidade bizarra, que ao mostrar as mudanças que o personagem vai moldando ao longo filme, faz com que vejamos um Coringa fiel na desordem, pronto para ser aquilo que sabemos que ele é – um vilão inconsequente, criador do caos, que não mede consequências, que tem até certa dificuldade de entende-la. 

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Calcado em referências dos filmes dos anos 80, como o Rei da Comédia e Taxi Driver, ambos de Scorcese, principal ponto de inspiração para esse filme, Coringa não deixa de beber de fontes primordiais – as HQ’s. Temos referências claras ao Batman (afinal, a família Wayne está no centro do filme), Cavaleiro das Trevas, HQ de Frank Miller também tem citação, assim como a já mencionada Piada Mortal. 

Falar de Coringa é sinônimo de Batman, mas não pense que Bruce Wayne não está no filme. Durante a pós produção, era dito que esse filme não teria relação com o Homem Morcego, mas sem querer dar spoliers, o Coringa influencia diretamente o surgimento daquele que conheceremos como Batman, além de deixar um final aberto a diversas interpretações. Seja lá como for, Bruce Wayne voltará aos cinemas em 2021 e precisaremos ver como o diretor do novo longa, Matt Reaves, aclamado pela trilogia de Planeta dos Macacos, irá aproveitar, se é que vai, as situações sugeridas em Coringa. O principal empecilho é a linha temporal, afinal, esse filme acontece nos meados dos anos 80, o novo Batman tende a acontecer nos tempos atuais. Veremos… 

// Um filme digno de Oscar?

Provavelmente. Uma atuação digna de Oscar? Com certeza! Talvez, Coringa seja pela segunda vez lembrado pela academia graças a atuação de Joaquin Phoenix, já que Heath Ledger ganhou uma estatueta póstuma de melhor ator. Phoenix é um dos melhores atores desta geração, seja pela loucura, perfeita para o personagem, seja pela entrega total para aquilo que se propõe. Existem diversos Coringas na dramaturgia, de Jack Nicholson a Cesar Romero, e Phoenix dá a quinta versão do personagem sendo, talvez, a que melhor sintetiza o cerne do que representa o vilão.

Seja pela avidez ao caos, a sensualidade travestida de loucura, a diversão pelo desequilíbrio, o Coringa de Phoenix é quase a perfeição do retardado nas principais obras das HQ’s. Não se sabe se Phoenix voltará ao papel, mas seria assustador e interessante imaginar esse Coringa frente ao Batman novamente.

Por fim, esse filme não é para crianças. Não é uma obra infantil. É um terror psicológico. Um mergulho na mente do mais perigoso e fascinante vilão da história dos quadrinhos. É a construção de uma pessoa desequilibrada, que mesmo sendo um estatística da sociedade, é um psicopata construído para a criação de um espetáculo de caos, tal qual um show de palhaço, onde, no fim, o que sobra é a tragédia por baixo da máscara.

O problema, nesse caso, é tragédia assumida com toques de prazer e máxima crueldade. Arthur Flack é sim uma vítima da sociedade em que está instaurada, mas ainda sim é alguém que sente prazer no distúrbio alheio, na criação do perigo.

Culpar apenas um dia ruim para transforma-lo no Coringa é inocente. O Palhaço do Caos sempre esteve em Arthur e o filme só mostra quais são os gatilhos para o nascimento do mais assustador vilão do universo Batman