Que tal um pudim de gafanhotos? Ou, quem sabe, aquele shake pós-treino de besouros? 

O s insetos são os organismos em maior abundância no planeta. A estimativa é de que haja algo em torno de 200 milhões de insetos para cada ser humano vivo. São cerca de 30 milhões de espécies. Destas, aproximadamente 1 900 espécies podem ser ingeridas por nós. Hoje, diversas culturas ao redor do mundo ja incluem gafanhotos, besouros, formigas e escorpiões na dieta. São mais de dois bilhões de pessoas que consomem esses bichos.

Pode parecer nojento, mas em um futuro não muito distante, talvez para você, seus filhos ou netos, os insetos serão colocados à mesa.

O assunto é tão sério que a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) defende, há algum tempo, a ingestão de insetos para erradicar a fome. Não se trata mais de uma iguaria do oriente em uma viagem de férias. As razões são diversas: custo mais baixo, disponibilidade na natureza, ciclo de reprodução acelerado, capacidade de conversão de alimentos em proteínas essenciais para construir massa corporal e fornecer os nutrientes necessários para manter as funções fisiológicas em dia.

A essa altura do texto, você pode ter torcido o nariz várias vezes e até feito cara de nojo. Diferente do que se pensa, isso não significa uma resposta contrária do seu organismo à ingestão de insetos. Isso porque, dos povos originários ao nossos ancestrais primatas, insetos sempre fizeram parte do cardápio. Estudo conduzido por Mareik Janiak, do departamento de antropologia da Universidade Rutgers (EUA), revelou que quase todos os primatas existentes possuem um gene capaz de produzir uma enzima chamada CHIA (não, não é aquela que você compra no empório do bairro) capaz de digerir insetos. 

Essa enzima estomacal quebra a quitina, um polissacarídio que constitui a carapaça de artrópodes, como besouros. A quitina tem, inclusive, propriedades antiinflamatórias e pode dar um up no sistema imunológico. “Como o organismo humano digere o exoesqueleto de insetos ainda está sendo estudado, mas isso aponta que pode ser possível que nosso organismo também produza essa enzima”, explicou Janiak no estudo. “Inclusive, caso nós não tenhamos, de fato, esta substância no corpo, os insetos podem ser melhor digeridos quando cozidos”. 

/ mais saudável e sustentável  

Insetos podem fornecer mas proteína, fibras, sais minerais, cálcio e fósforo que a carne de vaca, frango ou porco. Para se ter uma ideia, em 3,5g de insetos há duas vezes mais proteína do que a mesma porção de carne de porco. Já em relação a cálcio, há 10 mil por cento (!) mais nutriente que na mesma quantidade de carne de porco. Grilos, por exemplo, têm cinco vezes mais magnésio que bife. Estudo da Universidade Harvard (EUA) pontua que aumentar o consumo deste nutriente diminui em 22% o risco de desenvolver um problema cardíaco; cientistas japoneses mostraram que consumir magnésio também minimiza em um terço a probabilidade de Diabetes tipo 2. E tem mais: os mesmos grilos possuem três vezes mais ferro que a carne animal.  

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Daniella Martin, autora do livro Edible: An Adventure into the World of Eating Insects and the Last Great Hope to Save the Planet (Comestível: uma aventura pelo mundo da alimentação com insetos e a última esperança de salvar o planeta, em tradução livre) defende o consumo de insetos. “Ao contrário dos animais, em que você ingere somente uma parte do músculo, os insetos são comidos por inteiro. Isso significa ingerir ossos e órgãos, que são também fonte de vitamina B12 e zinco”, diz. “É como se você comesse uma vaca inteira”. 

No Brasil, já há estudos no tema. A inclusão de farinha de insetos na dieta de camundongos é eficaz na redução da desnutrição e da obesidade. de acordo com uma série de pesquisas realizadas no Instituto de Ciências Agrárias (ICA).

Agora, vem a parte que importa também ao meio ambiente. Fazendas de criação de vacas, aves e suínos são como usinas nucleares, que exigem muitos recursos e despejam muitos materiais tóxicos no planeta. Insetos produzem somente uma fração dos gases e substâncias nocivas que as fazendas atuais; podem ser criados em pequenos espaços e demandam quase nada de água (Veja o infográfico abaixo). Para produzir 1 kg de bife, a estimativa de consumo é de quase 10 mil litros de água potável. O gado demora de dois a três anos para atingir a maturidade de corte, enquanto insetos vão da eclosão do ovo à idade adulta em 7 semanas. 

/ Gafanhotos no prato

Depois de tudo isso, você ainda pode achar que a dieta de insetos está longe da realidade brasileira, mas não é verdade. No Nordeste, a farofa de formiga tanajura é muito famosa. Usamos corante de cochonilha, um inseto mexicano, em quase tudo que consumimos diariamente: sorvetes, geleias, licor e até em chicletes. Entretanto, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda não possuem nenhuma regulamentação para criação, venda e processamento de insetos comestíveis.

De qualquer forma, já existem startups no país desenvolvendo farinha, barras de cereais e snacks à base de insetos desidratados e moídos.

Em breve, na sua dieta de ganho de massa.