Você, querendo ou não, está familiarizado com as cantadas de rua, meu caro. Pode ter crescido com o hábito de achar normal gritar que uma mulher na rua é gostosa. Ou soltar um assovio, convidá-la para ir a sua casa, pedir o telefone.. e receber um olhar fulminante, uma ofensa, um gesto que demonstre que não, sua iniciativa não foi aprovada e muito menos galanteadora.

Pior. O resultado dessa sua atitude non-normal vem com um alerta: cantadas de rua podem ser devastadoras para elas.

O mal das cantadas

Só para você ter uma ideia, alguns países como Bélgica também consideram a pratica como um ato ilegal. Outros, como Alemanha, França, Espanha, Noruega, Suécia, embora não possuam uma legislação específica, contam com medidas severas caso a vítima denuncie e diga que foi humilhada ou intimidada.
Com o crescimento da prática aqui no lado latino do mundo, países da América do Sul, como Peru e Argentina, estão debatendo a criação de leis que coíbam as cantadas insultantes. No Brasil, mesmo que o tema não tenha chegado à casa legisladora, já ganhou espaço nas redes sociais com a campanha contra o assédio sexual em espaços públicos.

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É o caso do Chega de Fiu Fiu. A campanha identificou que 83% das mulheres não gostam de receber cantadas. Embora algumas pessoas defendam que a cantada é inofensiva, estudos mostram que a exposição constante a este tipo de assédio pode ter diversos impactos psicológicos negativos sobre as mulheres, que incluem uma sensação persistente de insegurança, perda de autoestima, desenvolvimento de sintomas de depressão, além de ansiedade e estresse.
Segundo Nereida Salette da Silveira, psicóloga e professora da Universidade Campinas (Unicamp), certas situações do cotidiano (como essas cantadas na rua) parecem inofensivas, mas carregam uma imensa carga de agressividade. “O assédio de rua, diferentemente de um flerte, não tem como finalidade iniciar um relacionamento. O único objetivo cataliza-se no próprio ato. É por isso que é violento”, afirma a especialista.
Essas cantadas de pedreiro, como diz o bordão popular, sim, são agressões e podem ser caracterizadas de diversas maneiras. Vão desde ações verbais ou gestos até ações em lugares públicos, direcionados a uma pessoa com base nas relações de gêneros. Ainda que você, seus tios ou muitos de seus amigos não reconheçam, para a especialista o ato é considerado ilícito.

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Porcentagem de mulheres que não gostam de receber cantadas de rua, segundo dados da campanha Chega de Fiu Fiu

Ao se deparar com tal situação, muitas mulheres se veem privadas de realizar atividades tidas como naturais e são obrigadas a mudar os trajetos e horários
Nereida Salette da Silveira

Psicóloga e professora, Universidade de Campinas (Unicamp)

Ela ainda salienta que por a cantada ser um comportamento cultural, mais do que discutir a criminalização é necessário que se adote medidas educativas tanto no ambiente familiar, quanto na escola. “Só por meio da educação poderemos construir uma sociedade mais igualitária”, afirma.